Data : 10/07/2014

Dados sujeitos a alteração sem aviso prévio.

O conteúdo deste material on-line não expressa, necessariamente, a nossa opinião.

Reportar erro

Relacionamentos sufocantes

Vivemos um momento da história em que as pessoas parecem mais necessitadas de relacionar-se. Porém, nem sempre os relacionamentos respondem ao que elas desejam de verdade. Assim, muitas vezes se sentem fracassadas, seja pela falta do relacionamento, seja pela presença dele que não completa, seja pelo excesso que se torna sufocante. Tudo isso acontece talvez porque nos esquecemos de que temos um “espaço sagrado”.

A era da superficialidade

Talvez o primeiro fenômeno que poderíamos trazer em voga seja a superficialidade nos relacionamentos atuais. Na era da velocidade e da comunicação, perder tempo demais com qualquer coisa que não sei se vai dar certo está fora de moda. Ah! E a moda muda constantemente, viu? Então, tem que ter novidade chegando senão, tô fora.

Quando tudo isso influencia apenas as coisas fora de nós, como a calça que uso, meu sapato, meu celular, tá beleza… O mal é ter que ficar comprando coisas novas todo mês, mas ok! Afinal, essas coisas foram feitas para passar. Uma dica: se não for usar mais, e provavelmente não vai, dê para alguém. E cuidado para não cair no consumismo. Mas esse não é o assunto agora.

Voltando ao nosso assunto, quando essa “cultura do descartável” vai para os meus relacionamentos, acontece algo desastroso. Esse é o problema. Afinal, meu corpo e minha alma não são como o meu celular que posso descartar. O meu corpo vai comigo até o caixão. E no caso da alma… Nossa! Essa aí é tua para sempre.

Há uma carência de relacionamentos duradouros. Na verdade todo mundo quer, mas poucos são capazes de construí-los, porque na lógica da superficialidade, da moda (que muda) e do descartável, logo logo todo mundo passa a ser, para mim, um pouco “cansativo”, ainda mais quando vacilam. “Minha BFF era até ontem quando me deu aquele bolo”. “Quer saber, agora vou partir para outra”. Partir para outra até a hora que se aborrecer com esta também.

Chegará um momento em que sentiremos a necessidade de pessoas com quem possamos contar de verdade e agindo dessa forma não as encontraremos. O que fazer? O que posso fazer? Aperto o botão vermelho de emergência! Éôéôéô… Preciso de alguém agora que ajude nesse aperto.

O sufoco

Elejo aquele que apareceu mais rápido, esse é meu amigo de verdade. Quando gritei, foi o primeiro que chegou. Esse agora é meu BFF [1]. Não, mas todos os que foram eu descartei e esse eu não descartarei, então esse vai ser meu “BFFFF!!! ”. Agora sim! Esse não vou deixar sair de perto de mim. Parto para o mesmo caminho, mas agora pelo lado contrário: um relacionamento sufocante.

Para não perder aquele novo amigo, ou namorado, ou seja lá o que for, faço de tudo. Não passo um dia sem uma mensagem no celular, ou comentário no facebook, ou uma ligação ou um convite para fazer algo, ou uma foto no Instagram que faça menção a ele, ou e-mail, ou qualquer coisa que prove que lhe sou imensamente grato! E claro, não basta um ponto final em qualquer coisa que falo para meu “BFFFF!!!”, tem que ter exclamação! E não só uma!! Porque uma eu já falo com os outros, esse é especial!!!!!!

A constante tensão do relacionamento sufocante é que o outro sente-se obrigado a corresponder às “exclamações”. Ele corresponde da mesma forma, afinal se sente “amado” por aquela pessoa, até que chega a hora que não aguenta mais. E começa a diminuir o retorno às “exclamações”, às respostas e aos convites. E começam logo as cobranças.

“Será que não estou provando que gosto dele? Não posso perder mais esse amigo. O que posso fazer? Nem me disse que ia fazer isso hoje. Eu poderia ter ido e nem me convidou…”. Nesse estágio, as coisas estão bem graves, porque não há mais liberdade. Há apenas medo, de um lado, de sentir-se sozinho novamente (e tragicamente isso vai logo acontecer), de outro, um sentimento de sufocamento que quer se ver livre.

Resposta: a solidão

Nesse cenário, surge uma resposta entre a superficialidade e o sufocamento, aquilo que parece ser o maior inimigo: a solidão.

Todos temos dentro de nós um espaço interior que precisa ser preservado. A compreensão deste espaço é fundamental para relacionamentos sadios. Compreender a necessidade da solidão para aprofundar os laços humanos e os tornar duradouros é fundamental. Como assim?

A solidão não é isolamento, ao contrário. A solidão é o local onde eu me encontro com Aquele que pode, de fato, estar comigo sempre. Nesse relacionamento, sinto-me completo e os outros serão para mim lugar de transbordar o amor, o afeto que recebi. Assim, torno-me e torno o outro livre. Aqui, sim, há amor.

Quem é capaz de silenciar, de passar um tempo “só” e não se sentir desesperado, está pronto para um relacionamento sadio no qual o outro não se torna puro objeto de minha satisfação, mas outro como eu, livre.

Se você desejar, faça essa experiência. Busque uma capela e passe um bom tempo em uma conversa com o Senhor. Converse, questione, ame, mas, acima de tudo, deixe-se amar. Deixe-se olhar por aquele que o olha. Que ele preencha todo o espaço e o torne uma pessoa livre para amar.

[1] Best friend forever forever forever!!! – Hiperbolismo para diferenciar aquele dos meus ex-bff (se é que isso existe).

Franco Michel Galdino
Fonte: http://www.comshalom.org/relacionamentos-sufocantes/